Na década de 40 foram dados os primeiros passos no desenvolvimento da tecnologia nuclear, que de início se focou, essencialmente, na componente bélica.
Na sua génese o financiamento da indústria nuclear dependeu directamente dos gastos militares com a pesquisa sobre armas nucleares. Os subsídios directos foram atribuídos no seguimento da crença que a energia nuclear iria ser barata, de confiança e infinita. Contudo, tais promessas nunca foram cumpridas o que levou ao abandono de projectos de construção de muitas outras centrais nucleares, mesmo antes do acidente de Chernobil, que veio pôr a nu as fragilidades e perigos inegáveis da tecnologia de produção da energia nuclear de fissão.
A energia nuclear é a fonte de energia mais subsidiada ao longo da sua história, sendo muito difícil ter uma noção concreta dos montantes envolvidos, uma vez que muitos dos subsídios não aparecem nas contas nacionais dos países e muita da pesquisa foi levada a cabo no âmbito de objectivos militares secretos.
Não obstante os enormes subsídios recebidos (que mesmo assim nem sempre conseguiram garantir a sustentabilidade económica das centrais), os problemas mais graves associados à energia nuclear continuam por resolver, ainda que tenham passado quase 6 décadas desde o início do seu desenvolvimento – a possibilidade de ocorrência de um acidente grave e o tratamento, ou mesmo o simples armazenamento, dos resíduos radioactivos.
Segundo previsões internacionais (World Energy Outlook), ainda que esteja previsto um pequeno aumento na produção de energia nuclear, a percentagem que esta representará no total da energia produzida sofrerá uma forte diminuição: de 17% em 2002 para 9% em 2030.
O declínio da energia nuclear
O declínio que se verificou, particularmente, nas últimas duas décadas não se ficou a dever a um factor isolado, mas sim a uma conjugação de factores, nomeadamente:
1. Ao facto da energia nuclear nunca ter correspondido às expectativas económicas e sociais criadas;
2. Por ser uma forma de produção de energia cuja imagem está, de forma clara ligada à guerra e ao secretismo militar, e consequentemente, a um profundo défice democrático em resultado da falta de transparência para com a sociedade civil;
3. Pela ocorrência de diversos acidentes, alguns deles graves ou mesmo catastróficos, como foi o caso do acidente de Chernobil;
4. Pelo facto de, mesmo após 60 anos de investimento, não estar hoje sequer um passo à frente no que diz respeito a como tratar os resíduos radioactivos que resultam de todo o processo; a única possibilidade é a deposição no subsolo;
5. Aos riscos associados ao transporte dos materiais radioactivos ao longo de todo o processo de produção (urânio, urânio enriquecido, resíduos para armazenamento temporário; envio do combustível gasto para reprocessamento);
6. Ao risco de proliferação de armas nucleares;
7. Ao aumento do risco de um ataque terrorista;
8. Aos custos associados ao desmantelamento das centrais no final do seu ciclo de vida que, em larga medida, não foi contemplado ao longo do período de vida das centrais.
A energia nuclear em Portugal
Ainda que nunca tenha enveredado por esta forma de produção de energia, mesmo quando esta surgiu associada a promessas maravilhosas de energia segura, barata e abundante, Portugal não esteve totalmente afastado da discussão desta temática.
Há cerca de 30 anos esteve prevista a instalação de uma central nuclear em Ferrel, junto a Peniche, obra que teve desde o início a oposição da população local, tendo sido realizada uma demonstração do descontentamento perante a solução apresentada. Este movimento de oposição, que teve o seu elemento mais visível numa manifestação na aldeia de Ferrel no dia 19 de Março de 1976, representou um passo fundamental para a criação de um movimento mais alargado de oposição da sociedade civil à instalação da energia nuclear em Portugal. Este movimento, associado a outros factores, como a constatação das falácias relativas às benesses associadas à energia nuclear, levaram a um posterior abandono desta opção em Portugal.
Infelizmente, Portugal não aproveitou da melhor forma esta opção estratégica de recusar o recurso à energia nuclear, para apostar de forma séria e consequente no aproveitamento dos seus recursos energéticos renováveis. Esta falta de visão estratégica acabou por contribuir para o aumento da nossa dependência energética do petróleo e, logo, das importações que, associadas ao recente aumento do preço do petróleo e aos impactos ambientais da sua utilização, abriram a porta a propostas oportunistas que pretendem aproveitar o momento difícil para promover de novo a energia nuclear, quando muitos países estão a abandoná-la. Este momento surge como a última oportunidade para a energia nuclear, pelo que todos os argumentos parecem ser válidos para a tentar promover, mesmo que não possuam qualquer fundamento, quando levamos em consideração o que tem ocorrido nos países com experiência nesta área.
Os riscos de uma aposta na energia nuclear de fissão
Uma aposta nesta forma de produzir energia eléctrica significaria:
- O aumento significativo dos riscos para a saúde humana, para os ecossistemas e para os sistemas sociais e económicos devido à possibilidade de ocorrência de acidentes em larga escala (por causas naturais ou tecnológicas) e de ataques terroristas;
- A manutenção dos problemas com o cumprimento do Protocolo de Quioto, pois esta não é, de todo, uma forma de energia limpa do ponto de vista das emissões de dióxido de carbono, para além de só permitir produzir energia eléctrica quando os maiores problemas estão no sector dos transportes e no sector industrial;
- A criação de um novo problema para Portugal – o que fazer com os resíduos radioactivos resultantes da produção de energia – o que implicaria a escolha de locais para o seu armazenamento temporário e definitivo;
- Um investimento substancial ao longo de toda a cadeia tecnológica em termos de controlo, monitorização e regulação, em áreas onde Portugal tem pouca experiência e um desempenho muito deficiente
- A importação do urânio para utilizar na central, uma vez que será muito pouco provável a exploração de urânio em Portugal
- A manutenção da dependência dos combustíveis fósseis pois, mesmo países como a França, que produz cerca de 80% da sua energia eléctrica a partir de centrais nucleares, possuem a mesma dependência do petróleo que Portugal;
- Um contínuo adiamento da tomada de consciência sobre a imperatividade de mudarmos o nosso paradigma energético;
- O aumento das dificuldades na promoção de soluções descentralizadas de produção de energia;
- O gasto de recursos em tecnologia importada sem qualquer contributo nacional e sem qualquer perspectiva de o vir a ter ou de poder vir a ser uma tecnologia exportável, ao contrário do que acontece com as energias renováveis;
- A necessidade de investir substancialmente na rede de distribuição e em infra-estruturas de forma a garantir a estabilidade das operações
Alguns factos sobre a energia nuclear
Actualmente existem 434 reactores nucleares em todo o mundo que produzem cerca de 17% da electricidade mundial que corresponde a cerca de 2,5% da energia final global.
Apenas 31 países dos 191 Estados-membros das Nações Unidas possuem centrais nucleares. Três dos seis maiores utilizadores de energia nuclear (os Estados Unidos da América, a França, o Japão, a Alemanha, a Rússia e a Coreia do Sul) são estados que possuem armas nucleares e produzem cerca de três quartos (3/4) da electricidade nuclear global.
Se considerarmos os 25 países que constituem actualmente a União Europeia, existem 148 reactores que produzem 31% da electricidade, uma proporção superior à dos Estados Unidos, Japão ou Rússia. Quase metade, mais concretamente 45%, da electricidade nuclear produzida na UE é gerada em França.
Portugal, em 2010, deverá atingir a produção de 39% da sua electricidade a partir de fontes renováveis, de acordo com os compromissos assumidos perante os seus parceiros da União Europeia. A União Europeia deverá atingir a meta de 21% nessa mesma data.
O consumo de energia primária em Portugal aumentou 48% no período entre 1990 e 2003.